O QUE ANDEI A FAZER

Janeiro e Fevereiro foram meses que, por via de uma artrose no joelho direito, me obrigaram a ficar em repouso e a andar de canadiana. E o mês de Março também, por força do tempo, me obrigou a ficar mais em casa. Como não sou de "capinar sentada", (como diz uma amiga), dediquei-me aos bordados. Resolvi começar a fazer prendas de Natal, para depois não ter de andar a correr. Bordei sete almofadas mas tive de interromper por causa das alergias às lãs. Recomeço em Outubro...
Foi a minha amiga F.M. quem descobriu este ponto de bordado nas suas andanças pela internet. Ela está a bordar uma colcha, mas eu não me aventurei a tanto. Fiquei pelas almofadas, que são mais rápidas e não cansam tanto. O bordado chama-se Bargello ou florentino e faz-se com lãs, embora apareçam imagens de colchas feitas com tiras de tecido. O efeito é bonito e gosto de tentar coisas novas. (Chama-se Bargello porque o descobriram em cadeiras no palácio Bargello, em Florença, e daí o nome de Bargello ou florentino - as coisas que aprendo na internet!)
Aqui vos deixo as fotos das que considero mais bonitas.





Bordam-se rapidamente. Em geral, bordava uma por semana. Espero que gostem.




FELIZ PÁSCOA

A todos/as que por aqui passam, desejo uma Santa e Feliz Páscoa!

Há quatro anos

Há quatro anos fui acordada por um telefonema do hospital. Pediam-me que fosse lá, mas não  podiam dizer o motivo. Adivinhei logo. O Zé tinha morrido. Passei o dia numa espécie de torpor: tratei do funeral com a filha mais velha, que me levou para casa dela e foi, com a irmã, tratar do resto. Fiquei sentada na sala, a fazer os telefonemas para a família e os amigos. Não sei o que se passa com as outras pessoas, mas eu fiquei como que anestesiada, como se aquilo não estivesse a acontecer.
Hoje, quatro anos depois, já consigo aceitar a ideia de que o Zé realmente nos deixou, mas ainda me sinto perdida quando tento recordar o que se passou naquele dia. Está tudo envolto numa espécie de névoa, e ando às apalpadelas à procura... nem sei de quê!

Mais uma que me deixa...

Ainda o ano é uma criança e mais uma morte na família. A E.M. morreu hoje de madrugada. Aguentou-se enquanto a mãe, a Tia E., foi viva. Depois deixou-se vencer pela doença e foi descansar. Andei com ela ao colo, embora façamos só seis anos de diferença. Brincámos juntas muitas tardes. Comunicávamos muito pelo telefone. Falei com ela há pouco mais de três semanas; já estava mal e prometeu que voltava a ligar,quando se sentisse melhor. A família ficou mais pobre, e eu sinto-me cada vez mais só, sem as minhas referências.

ERA UMA BEBÉ LINDA!

Nasceu com 4 kilos e fez-me esperar quatro dias para, finalmente, se decidir a entrar neste mundo. Era uma criança linda! Crescia tão depressa, que a roupa vestida ontem já não lhe servia hoje. Nesta foto já tem quatro meses e meio. Sempre a rir, sempre bem disposta.

Que Deus te acompanhe sempre, querida filha, e te dê tudo o que mais ambicionas para ti e tuas filhas!

FILOSOFIA BARATA?

Porque será que é tão difícil aceitar a morte, por mais que, racionalmente, saibamos que tudo tem um fim?
Vem isto a propósito do falecimento, ontem, da Tia E., que tinha 94 anos. Foi uma tia muito presente na minha infância. Os meus Pais moravam no alto de um morro e não havia outras crianças à volta. Assim, mais ou menos todas as tardes, depois do lanche, o meu irmão mais novo e eu descíamos até ao largo onde vivia a Tia E. Em casa dela e no largo juntavam-se primos e primas e mais uma grande quantidade de miúdos da vizinhança. Não me recordo bem, mas formávamos um grupo de mais de quinze, que jogávamos aos polícias e ladrões, à macaca, ao mata, ou saltávamos à corda, ou brincávamos às escondidas. Assim que o sol se punha, vinha o criado buscar-nos para nos escoltar até casa.
Foi a Tia E. quem me ensinou a dançar o tango, nos "bailes" que organizava lá em casa, quem nos aturava nas nossas guerrinhas de garotos, e nos incentivava a fazer teatro no quintal...
Depois, nós fomos para o colégio e a Tia foi viver para Luanda e depois para Lisboa.
Regressada de África, já casada, retomei o contacto com a Tia. Vinha muitas vezes a minha casa para estar com a minha Mãe (sua irmã mais velha), e, quando já não podia deslocar-se telefonava-lhe e ficavam horas a fio a conversar. Quando a minha Mãe morreu, também com 94 anos, eu procurava telefonar todas as semanas para saber como estava. A Tia era muito amiga do Zé e gostava de conversar com ele. Ainda fomos os dois à sua festa dos 90 anos, quando ela ainda estava lúcida mas já tinha dificuldade em locomover-se. Até que fracturou o colo do fémur e teve de ser operada. Fui vê-la ao hospital, mas já não dizia coisa com coisa. E fui tendo notícias de que umas vezes  não reconhecia as pessoas.
Ontem tive a notícia da sua morte, de penumonia. Fiquei muito triste, e cheia de remorsos. Ia sabendo dela pela filha e por outra tia, mas nunca mais fui vê-la. A minha vida também se complicou e fui adiando a visita, talvez com receio de me emocionar, talvez por cobardia para ficar com a lembrança de tempos mais felizes. E agora já não há remédio. Embora esperasse o fim, esta certeza de que acabou foi como que uma bofetada! Nós nunca queremos que aqueles que fazem parte da nossa vida se vão embora, mas, às vezes, não sabemos mostrar-lhes isso em vida.

TODOS OS PATINHOS...

A água não servia para beber, quando eu era adolescente. Traziam-na do rio em barris, despejados  a seguir num reservatório. Havia um homem que dava à bomba para a água subir até a um tanque e dali ser canalizada para toda a casa. Para a beber, isso não era suficiente. Era preciso deitar a água em sangas ( havia 3 lá em casa, num anexo), onde era filtrada para recipientes em barro e de onde saía fresquinha. Dos recipientes, era transportada para a cozinha, onde era fervida em grandes panelas, e, depois de arrefecer, era deitada no filtro, e só depois podia ser bebida.
O anexo era muito fresco, e a minha mãe gostava de guardar ali os repolhos que lhe eram fornecidos. Acontece que eu nunca gostei de repolho, uma das minhas muitas manias.
A minha Mãe tinha criação de patos na horta junto do rio. Quando nasciam patinhos, eram levados  para o jardim da nossa casa, no alto de um morro, e andavam por ali até serem suficientemente grandinhos para se governarem junto do resto dos patos.
Eu gostava de andar no meio deles, tão amarelinhos, e ajudava a dar-lhes de comer. Até que tive uma ideia brilhante: comecei a tirar folhas dos repolhos e a fornecê-las aos patinhos, que as comiam num instante, não deixando qualquer prova do meu delito.
Mas a minha Mãe começou a estranhar a velocidade a que desapareciam os repolhos, e, passado algum tempo,  acabou por descobrir a minha artimanha. Os patinhos andavam bem gordinhos atrás de mim, à espera de mais repolho, mas a festa terminou  e eu fui obrigada a comer o repolho, sempre que era servido...

(As sangas eram feitas de um material poroso, de forma triangular, encaixadas numa armação de madeira. Por baixo do bico ficavam as bilhas em barro, para onde a água pingava. Tudo tinha de se manter bem limpo, pois desses cuidados dependia a nossa saúde.)

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